quinta-feira, 10 de junho de 2010

A Vida Superior

... A alma desembaraçada da matéria percebe pouco a pouco as vibrações melodiosas do éter, as delicadas harmonias descidas das colônias celestes; ouve o ritmo imponente das esferas. Esse canto dos mundos, essas vozes do infinito, que ecoam no silêncio, saboreia-as e deixa-se invadir até o arrebatamento. Recolhida, embriagada, cheia de um sentimento grave e religioso, de uma admiração que não pode se cansar, banha-se nas ondas do éter, contempla as profundezas siderais, as legiões de espíritos, sombras flexíveis, ligeiras, que aí flutuam e se agitam em véus de luz. Assiste à gênese dos mundos; vê a vida despertar, crescer na sua superfície; segue o desenvolvimento das humanidades que os povoam e, nesse espetáculo, constata que em todos os lugares a atividade, o movimento, a vida unem-se à ordem no Universo.
Qualquer que seja seu estado de adiantamento, o espírito que acaba de deixar a Terra não poderia aspirar a viver, indefinidamente, dessa vida superior. Sujeito à reencarnação, essa vida é para ele apenas um tempo de repouso, uma compensação devida aos males suportados, uma recompensa oferecida aos seus méritos. Aí se retempera e se fortifica para as lutas futuras. Mas, no futuro que o aguarda, não encontrará mais as angústias e os cuidados da vida terrestre. O espírito elevado é chamado a renascer em mundos melhor dotados que o nosso. A escala grandiosa dos mundos comporta inumeráveis graus, dispostos para a ascensão das almas; cada uma delas escala-os por sua vez.
Nas esferas superiores à Terra, a matéria tem menos império. Os males que engendra atenuam-se à medida que o ser progride, e terminam por desaparecer. Aí, o homem não se arrasta penosamente sobre o solo, acabrunhado sob a atmosfera pesada; desloca-se com facilidade. As necessidades corporais aí são quase nulas, e os rudes trabalhos, desconhecidos. A existência, mais longa que a nossa, desenrola-se no estudo, na participação nas obras de uma civilização aperfeiçoada, que tem por base a moral mais pura, o respeito aos direitos de todos, a amizade e a fraternidade. Os horrores da guerra, as epidemias, os flagelos não acontecem mais, e os interesses grosseiros, causa de cobiças nesse mundo, não dividem mais os espíritos.

Léon Denis

Do livro: Depois da Morte
Léon Denis – Gráfica e Editora


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(Página de abertura da Reunião Pública do CELD no dia 10/06/2010)